Festival de Teatro de Curitiba – Antígona

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Antígona é um daqueles “clássicos imortais”, uma tragédia grega escrita por Sófocles, considerado um dos grandes dramaturgos gregos. É daquelas peças que trazem todos os elementos que conhecemos dos dramas gregos. Os deuses e suas vaidades, as paixões humanas, a cobiça, o poder, sensualidade, lutas épicas e viagens existenciais que acometem todo homem (e de certa forma os deuses também).

É a parte final de uma trilogia informal conhecida como o Ciclo Tebano ou mesmo a Trilogia Tebana, embora não tenham sido planejadas como tal, mas foram as que sobreviveram até os dias de hoje. As outras duas são Édipo Rei e Édipo em Colono. Sim, nosso velho amigo Édipo. Aquele que o velho Freud pegou o nome e batizou um complexo bem famoso. O cara que teve a maldição de matar o próprio pai e desposar a própria mãe. Pois é. A vida era dura na Grécia antiga, ah se era! O cara enfrentou a Esfinge com sabedoria, e esse provavelmente foi o seu auge, pois depois disso foi só… tragédia! Édipo teve quatro filhos com sua própria mãe (então eram seus irmãos também): Etéocles, Ismênia, Polinice e a já citada Antígona. Essa família muito unida e também muito ouriçad, não brigava por qualquer razão não: depois que Édipo descobriu a loucurada que havia feito, furou os próprios olhos e deixou de reinar. Os dois irmãos combinaram de alternar o trono, mas obviamente a paixão pelo poder falou mais alto e só queriam se manter para sempre como os manda-chuvas. Isso ocasionou uma guerra civil e os irmãos acabaram se matando – e isso também foi maldição do próprio Édipo, que definitivamente não merece o título de pai do ano não. Bom, é toda essa carga dramática na história dessa família, que aproveita e já debate várias questões da sociedade na época, seus costumes, sua política e a religião.

O nome é Antígona pois ela pode ser considerada a “principal”, já que foi a única que ficou ao lado do pai quando este caiu em desgraça, e depois que os irmãos se mataram ela também se recusou a não dar um rito funerário decente para eles. Era uma lóque contra o sistema vigente na época, isso sim! O final dela eu não vou contar.

E Andréa Beltrão interpreta magistralmente esse papel, e também muitos outros durante a peça. Ela interpreta praticamente todos os personagens importantes, indo e voltando no tempo (palmas para o roteiro bem dinâmico e enxuto) e nos dando pinceladas do que foi acontecendo para as coisas chegarem nesse ponto. Atriz dotada naturalmente de uma grande facilidade na parte de expressão corporal (ela faz caras e bocas, alterna entre comédia e tragédia, anda pela platéia, grita, dança e batalha), consegue transmitir muito bem todas essas camadas da história. Mas em nenhum momento ficamos com aquela impressão elitista que temos em muitos teatros “sérios” e clássicos. Seu rosto, já tão conhecido da televisão brasileira, nos transmite uma coisa amigável, carinhosa até. Eu particularmente sempre simpatizei com a imagem dela, quando a via na televisão desde os anos 90. Me parecia aquela pessoa que deveria ser muito gente fina de conversar ao vivo. Pois bem, isso tudo ajuda a peça a fluir de uma maneira bem bacana, pois apesar de toda a tragédia presenciada, ela também dá seus toques de humor aqui e ali, nos fazendo respirar nos momentos certos. Nos faz enxergar a história pelos olhos e anseios de vários personagens ao longo da uma hora e meia de peça, e nunca ficamos confusos ou cansados.

Pegando a tradução clássica de Millôr Fernandes e direção de Amir Haddad (que estava na platéia e também foi ovacionado), Antígona é daqueles textos imortais que serão encenados muitas e muitas vezes na história. É bom saber que ainda temos uma montagem exemplar dessas sendo apresentada nesse Festival de Curitiba, pois como a própria Andréa disse no final, nesses tempos que vivemos, reflexões e expressões assim são “muito importantes”. Deixo aqui uma das mais belas passagens do teatro, na minha opinião:

Vive o presente, recorda o passado, antevê o futuro. Tudo lhe é possível. Na criação que o cerca só dois mistérios terríveis, dois limites. Um, a morte, da qual em vão tenta escapar. Outro, seu próprio irmão e semelhante, o qual não vê e não entende. Se não resiste a ele, é esmagado. Se o vence, o orgulho o cega e vira um monstro que os deuses desamparam. Só o governante que respeita as leis de sua gente e a divina justiça dos costumes mantém sua força porque mantém sua medida humana. Em mim só manda um rei: o que constrói as pontes e destrói muralhas”

Biografia do Autor

Marcel Cigano

Uma pessoa extremamente curiosa. Acredita que a cultura pop revela muito sobre o mundo que vivemos hoje em dia. É isso aí. See you space cowboy.

1 Comentário
  1. Murihell

    dezembro 7, 2017 às 3:35 am

    Como é difícil te achar

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