Festival de Teatro de Curitiba – A casa dos budas ditosos

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Um dos clássicos da literatura brasileira contemporânea, A casa dos budas ditosos é uma das grandes obras do escritor João Ubaldo Ribeiro, falecido em 2014. Publicado em 1999 como parte da série “Plenos Pecados” da editora Objetiva, no caso desse livro o tema era a Luxúria. Basicamente, é a narração de uma mulher de 68 anos relembrando a própria vida e as aventuras e desventuras sexuais que teve ao longo dessas décadas, aproveitando para traçar parâmetros com a sociedade e refletir sobre como tudo isso foi moldando seu caráter e sua vida.

Sucesso absoluto de vendas e crítica, merecidamente, desde 2003, quando foi encenado pela primeira vez em São Paulo, a peça de teatro já foi vista por mais de 350.000 pessoas e no sábado, primeiro de Abril, foi encenada no Guairão. Com toda a competência de Fernanda Torres, o monólogo de quase duas horas foi ovacionado pela platéia.

Dirigido por Domingos de Oliveira com um minimalismo exemplar, o foco do negócio mesmo está no roteiro. A adaptação enxugou uma parte da história para ficar dentro das duas horas previstas, mas manteve toda a base e os principais pontos. Mas nada disso daria certo se não fosse a interpretação de Torres, que consegue passar da comédia para a tragédia com uma facilidade e sensibilidade notáveis. São as memórias picantes de uma sexagenária que já experimentou de tudo em matéria de sexo, e falava abertamente e sem tabus sobre tudo isso. Então espere uma enxurrada de palavrões, referências à cocaína e maconha, críticas à religião, à política e à sociedade no geral, assim como uns passeios por temas que chocam mesmo com ela falando tudo tão naturalmente, como a parte do incesto. A risada às vezes sai nervosa, do tipo “será que eu deveria estar rindo disso?”, o que é interessante pois estimula a reflexão. O público adorou, e não foi por menos: vimos ali um roteiro brilhantemente adaptado de uma obra que resiste ao tempo, sendo encenado com entrega e paixão por uma grande atriz. E além de tudo faz pensar sobre várias hipocrisias e tabus que vamos levando no dia-a-dia de nossas vidinhas.

Biografia do Autor

Marcel Cigano

Uma pessoa extremamente curiosa. Acredita que a cultura pop revela muito sobre o mundo que vivemos hoje em dia. É isso aí. See you space cowboy.

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